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As particularidades da cultura barroca no Brasil

    Nos séculos XVI, XVII e XVIII um estilo vinha ganhando destaque no cenário artístico brasileiro: o Barroco. Com o intuito de catequizar os nativos, esta arte traz o esplendor através de suas belas Igrejas surpreendendo e encantando as pessoas da época. Mas será que o Barroco se desenvolveu da mesma forma em toda a grande extensão de nosso país?
    A colonização da América do Sul já reflete isso: olhamos o mapa-político e já vemos as diferenças dos dois sistemas de colonização -espanhol e português- fazendo com que o urbanismo e a arquitetura civil crescessem de maneiras diferentes. Por não encontrarem culturas artísticas avançadas aqui, a arte desenvolveu-se com valores portugueses, mas, apesar disso, não os seguimos fielmente. Devido à vastidão territorial, às diferentes atividades econômicas e relações de cada local do Brasil com Portugal, as áreas territoriais tiveram suas próprias tipologias.


Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto.
    Para melhor compreensão, podemos diferenciar Bahia e Pernambuco de Minas Gerais, duas áreas com aspectos geográficos diferentes que refletirão a diferença na cultura artística brasileira. Nos séculos XVI e XVII, a região de Pernambuco e da Bahia, pela grande produção açucareira, ganhou o interesse da Coroa Portuguesa na colonização e afirmamos isso com o fato de que a maioria dos monumentos significativos que se conservam deste período estão lá. Mas, no século XVIII, o interesse se desloca para outro lugar: Minas Gerais. Essa região interiorana trazia um novo ciclo econômico, o da mineração de ouro e diamantes, que logo trouxe muita riqueza a Portugal. Quem for às cidades históricas de Minas, poderá ver o legado que essa riqueza deixou através das luxuosas Igrejas decoradas com talha dourada. A urbanização dessas áreas também foi diferente: Bahia, denominada cidade-capital pela Coroa Portuguesa, foi urbanizada num plano ortogonal regularizador e já Ouro Preto, com seu relevo irregular e morros, teve um modelo informal de urbanização, sem planejamento, notavelmente visto por seus visitantes hoje.

Colegio Jesuita de Salvador
Fachada em pedra-de-lióz
    No uso de materiais, a questão de uma cidade ser litorânea ou não também influenciou. Encontraram-se dificuldades na decoração interna das igrejas em cidades interioranas, pois o transporte de alguns materiais era inviável, já que estes chegavam por navio no porto das distantes cidades litorâneas. Devido a isso, podemos perceber em Minas Gerais, por exemplo, uma tipologia diferente, o Barroco Mineiro, que substitui materiais como pedra-de-lióz por pedra-sabão e o mármore das igrejas barrocas italianas pela talha dourada. Muitas regiões acabam optando por mão-de-obra e materiais locais, oferecendo outra versão do modelo internacional barroco.



Cristo, por Aleijadinho.
Escultor, arquiteto e omamentista mineiro.
    Também percebemos a regionalização na produção de imagens religiosas, mais evidente na Bahia, em Pernambuco e em Minas Gerais. As imagens feitas na Bahia tiveram uma grande aceitação do público interno-sendo feitas com qualidade e em grande quantidade- e como características têm-se o apuro nos gestos, a movimentação das vestes dos personagens e a policromia das cores vivas com o tradicional dourado vibrante. Em Pernambuco, as expressões fisionômicas das imagens chegaram, algumas vezes, a reproduzir traços locais e destaca-se também a refinada policromia que chegava a apresentar o dourado integralmente nos panejamentos com delicado trabalho ornamental. Já as imagens mineiras eram mais discretas que as baianas e pernambucanas, porém tinham notável e excepcional força de expressão.   
Seja pela colonização, pela urbanização, pelas atividades econômicas desenvolvidas, pela matéria-prima ou pela mão de obra, a cultura barroca sofreu regionalização, tendo suas características próprias ao redor do Brasil. Um só estilo, diversas tipologias. Um país, suas particularidades.

**Fonte bibliográfica: texto de Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira “A Arte no Brasil nos séculos XVI, XVII e XVIII” do livro História da Arte no Brasil: textos de síntese.